quarta-feira, 22 de abril de 2009

Filosofia do cronômetro

(Green Watch by Amuse - DeviantArt)


Terremoto e peço um chá para tentar sentir o sabor dos dias que passam em martelo agalopado. Ontem já nem lembro, hoje já acaba, amanhã, quando der conta, já se foi. Cajueiro ao lado da casa, vívidas recordações de horas que pareciam anos a saborear cajus. Sombra, água fresca, o mar tão perto que se podia ouvir as ondas e o cântico das sereias que ainda não sonhava desejar . Refeição agora é prova de velocista, engolida e deglutida entre um afazer e outro e não tem mais o mesmo sabor. Tudo é tão mecânico, tudo se inicia ao som do tiro de partida e a pista só tem cem metros. Imperativo concluir o que se inicia em menos de dez segundos, novo recorde mundial batido a cada tic-tac criterioso do relógio que hoje é senhor do tempo e não mais o seu serviçal. Dispositivo surreal travestido de ditador que nos açoita com ponteiros travestidos de tridente. Delírio? Mas acho que sinto o cheiro de enxofre em cada um desses pequenos tiranos. Bomba atômica sobre a Suíça e perderíamos também o sabor do chocolate. Dúvida cruel, paradoxos do capital.

O sol se põe antes mesmo de nascer
A noite é um inocente piscar de olhos
Dias seguem em martelo agalopado
Escuto o Zé contar seus segredos
Dê-me seu dinheiro
Eu preciso comprar um pouco de tempo para viver

6 comentários:

Dora disse...

Muitas vezes "tempo" é sinônimo de dinheiro e dinheiro quase nunca é sinônimo de tempo.
"Eu preciso comprar um pouco de tempo para viver"
Fiquei nostálgica também pelo tempo que antes eu pensava, fosse de graça, algo do tipo uma cortesia da vida (ou será que era mesmo?!)

:]

Letícia disse...

John,

Já comprou seus óculos novos? Ri muito quando disse que tinha lido "surfista" porque eu também li assim. =) Mas eu já uso óculos.

E você é o homem moderno. Esses que andam falando por aí. Correr, sonhar muito e viver pouco. Sempre gostei desse toque de realidade em você e não largo mão de dizer que sempre que o leio, vejo mais que a verdade.

E também ouço o Zé. Às vezes, fico melancólica quando ele fala do saco de confetes.

Beijos, Escritor.

Estou feliz que tenha encontrado tempo para escrever.

Marília Silveira disse...

Pois é, lá na Argentina (que tu não és fã) o tempo é outro, parece que o tempo lá passa diferente, tem outra intensidade, é mais lento parece. E minha professora de lá falando do tempo disse:

fazer tempo
fazer-se no tempo

(e quando eu disse que aqui nós "matamos tempo" ela ficou muito supresa...)

e eu posso completar que aqui (de volta ao Brasil) tenho feito meu tempo, tenho encontrado espaço para me fazer (constituir/criar) no tempo

não te esquece que escrever é forma de fazer-se também, no tal tempo que tu nunca tem.

Karol Maia disse...

Legalzinho... Abraço para todos do cafezinho.

Dora disse...

João, tenho 3 sugestões de músicas de filmes.
1.Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's);
2.Perfume de Mulher;
3.A Lista de Schindler.

São lindas e acho que ainda não tem aí na seleção de vocês.

:]

Camilla Tebet disse...

Correndo tanto que até trocou o café por um chá, caro poeta?
Então vamos jogar esse relógio fora, porque ficar com raiva da pressa e entrar na onda, só nos castiga. Fàcil falar né?? Né não...