terça-feira, 28 de julho de 2009

Pobres Formigas

feather on a pond by kureculari - deviantart



Somos como formigas. Caminhamos sob os pés de gigantes. Somos o tempo perdido em dias que não possuem fim. Surpreendemos. Suportamos pesos desproporcionais à leveza que sugerimos. Somos formigas operárias. Trabalhamos para dar conforto ao esperto gafanhoto que nunca passa frio. Nosso comportamento randômico aparentemente determina a ordem do caos que criamos. Somos como o espelho quebrado. Insatisfação eterna com o que vemos, ouvimos e pedimos. Nunca temos o suficiente e tememos nunca ter. Somos a insuportável certeza de não ser, a incerta proeza de vencer, a insuspeitável agonia de não saber. Somos como formigas. Cavamos nossos túneis e neles vivemos às escuras. Somos o oposto do oposto do que é certo e não temos consciência. Somos o fardo pesado que retarda o gozo de uma plenitude que não logramos atingir. Percorremos o labirinto de nossas angústias, catalogamos nossos defeitos, repreendemos nossos sonhos, desacreditamos nossa fé, não deixamos tijolo sobre tijolo, não fazemos acordos, sabotamos nossa improvável felicidade, soltamos impropérios quando deveríamos orar. Somos como as formigas. Incapazes de refletir, não ousamos ter a noção de que ser é parte de uma insustentável e harmoniosa leveza no viver.

12 comentários:

João Neto disse...

Bom, aí está. Agora continua com o Rodrigo, que se inscreveu no blog e não postou ainda. O tema é: um chiclete mascado, dois clipes de papel e uma liga de borracha. Te vira McGiver!

Ps.: Ok, falando sério, o tema é: o dia em que a terra parou. Ou seja, te vira mesmo McGiver!!!!

Irônica Flor disse...
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Irônica Flor disse...

A princípio, achei a comparação bastante imprópria...
você me convenceu.

"Somos como formigas."

Marília disse...

eu diria que o tema parece mais "A insustentável leveza do ser... e...

"O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados"(Milan Kundera, 1983).

Dora disse...

Um texto profundo e sucinto. Disse tanto com tão poucas, porém sábias palavras.

"Somos a insuportável certeza de não ser, a incerta proeza de vencer, a insuspeitável agonia de não saber."

Vivemos em meio a tantos conflitos (e aqui, leia-se, emocionais, profissionais, etc.)que às vezes, esquecemos até de que "vivemos". Ainda.
Bom fim-de-semana :]

Dora disse...

Ei, sr. João... fiquei por aqui ouvindo tua Play List :D
Eu gosto muito, então é justo que eu colabore de novo. Tenho mais 3 sugestões:

1.The Departed - Os Infiltrados
(Dropkick Murphys - I'm shipping up to Boston)
2. Matrix - Matrix
(Enigma - esta eu não sei direito osnomes e bandas, mas é aquela das lutas, sabe?)
3. Shall we dance - Dança comigo?
(Santa Maria Del Buen Aire - Tango Gotan Project)

Eu tenho essas músicas... rs rs

Ana Fernandes disse...
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Ana Fernandes disse...

Quando sugeri o tema imaginei que sairia algo bem bacana, pois conheço bem o escritor. Confesso, entretanto, que a surpresa é um elemento inerente a alma de quem escreve.

Meu Anjo, o que posso dizer... Único e preciso!

Um beijo e um sorriso!!!

Alessandro Medeiros disse...

Jhon, único como sempre com o seu jeito de escrever e de se expressar.
I Love you.

Thomaz Ribeiro disse...

Meio crônica, meio desabafo... seu poema fala de nossa profunda incapacidade de realizar algo sem refletir. De fato como pequenas formigas esquicidas numa imensa cidade.

Patrícia Lara disse...

Olá, João Neto!

Passando para pôr a leitura em dia.
Que belíssima reflexão!

Eu aqui, me sentindo toda "formiga", me identificando com cada palavra do seu texto.

Às vezes somos tão pequenos, né? Não ousamos transpor as barreiras da "harmoniosa leveza do viver" e nos trancamos em nossas tocas escuras... (isso tá bem a minha cara no momento! rs)

Parabéns!

Um grande abraço,
Patrícia Lara

Patrícia Lara disse...
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