Este é um projeto que venho maturando já há algum tempo. Não havia postado antes por achar os desenhos ruins. O fato deles estarem aqui não significa dizer que estou mais sem-vergonha. Talvez, e apenas talvez, indique que eu esteja mais corajoso. Espero que gostem das minhas vassouras.
Ps.: Não consegui descobrir uma maneira de postar o desenho em um tamanho bacana. Depois de horas brigando com a tecnologia fui vencido pelo cansaço. Aos amigos leitores que tenham problemas de visão, sugiro clicar na imagem para ela ficar maior. Desculpem o incômodo, vou continuar tentando encontrar uma maneira de colar a imagem em um tamanho maior.
Neste momento não reflito sobre muita coisa além do necessário. Desprezo ninharias, converto santos à minha religião e confesso pecados inacabados. Há maior arrependimento do que daquilo que se desejou fazer e não se fez? Relógio percorre caminho em voltas sem fim. Pirueta descendente qual avião desgovernado rumo ao chão. Assim é o tempo. Assim esvaem-se os momentos, ficam-se os anéis, contam-se os dias, perde-se o vigor e, no ocaso, somos velhos farrapos contando vantagens infantis. Tenho bloquinho onde rascunho idéias, mas nunca as leio novamente. Idéias deitadas em papel não fazem verão, não movem moinhos, não são merecedoras de releitura, não põem o café na mesa para o desjejum. O conforto que resta é saber-se sonhando acordado. E o pânico discreto que nos aflige vem de descobrir-se piloto do avião que faz piruetas rumo à realidade da existência. O caminho para o fim. A finitude humana frente ao universo. A angústia de acreditar-se uma mera marionete. Salvem Kierkegaard da religião, dizem os filósofos. Salvem Kierkegaard da filosofia, dizem os religiosos. Aproveite a paisagem, diz a auto-ajuda. Estoure os miolos, diz a razão. Acenda um cigarro e ouça boa música, digo eu.
Somos escravos. Massa disforme e conforme mandam nossos delírios de grandeza. Colhemos em plantação alheia, escrevemos bilhetes de geladeira, beijamos sem prazer e, obcecados, açoitamos nossos amores e os reduzimos a pó. Somos meliantes, somos forasteiros, somos balzaquianos, somos freudianos, somos lacanianos, somos tese de doutorado, somos, no fim de tudo, estatística do IBGE. Verborrágicos, lacônicos, arrogantes e pretensamente verdadeiros. Somos pré-conceitos. Somos o supra-sumo da criação, o máximo da evolução e, em nossa megalomania, não abrimos nem para um trem. Fingimos inocência, pesar, choro e ranger de dentes. Tememos a morte, a senilidade, a falta do desejo, a bomba atômica, o velho do saco, as idéias de Bush e as calorias da torta de morango. Tememos os ratos e votamos neles para governarem nossos recursos. Ajoelhamos todos as noites de braços dados com Sade e Sacher-Marzoch e nos masturbamos xingando, atanazando, vendando, espancando, chicoteando, batendo, queimando, estuprando, esfaqueando, estrangulando e mutilando a nossa vida.Somos escravos. Mentimos sem o menor rubor para mantermos o status quo. Somos covardes. Somos um caldo difuso, expressão cáustica de um não-viver atônito, perplexo e sem destino. Montamos uma farsa com base em uma cultura digna dos piores vitupérios, violada e volatilizada ao sabor dos mercados. E não nos damos conta. Caminharemos até o fim do mundo como Alice, o Leão, o Espantalho e o Homem de Lata: de braços dados e recitando poemas mal acabados. Somos escravos. Somos primatas. Macacos treinados brincando de deus em troca de bananas. Somos a primazia do mundo que alegremente arremessamos na latrina.