sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Vigília

bedroom by fabienbos - deviantart.com



Tento dormir e descubro

O que fazes velando o meu sono?

O que queres mirando meu rosto assim?

Belo eu sei que ele não é

Então, quantas noites mais terei o prazer desta vigília?


Mas, é hora

A noite se vai, o tempo que corre acelerado

Sempre acelerado quando estamos, nós dois, como se fôssemos um

Sol nascendo para o sono que não pude ter à noite

Não há arrependimentos


Toda saudade é expressão da despedida

Todo reencontro demora mais do que seria justo esperar

Mas nestas horas assemelhadas a dias

Resta a certeza de novamente trocar o sono pela vigília

Benditos momentos em que não há nada melhor para fazer


Leva

Através do certo

Por entre os mistérios

Entre teus lábios

Sob tua pele

Em teu respirar

Naquele teu olhar

Dentro de si


Leva

Esta certeza

Estas linhas

Esta fábula

Esta maneira

De falar do amor

Que dedico a ti



Ps.: Esta é oferecida a você, Ana Fernandes. Precisava dizer? Claro que não, pois já sabes tudo isso...


domingo, 9 de agosto de 2009

Crise de Idade Inteira

train by parawan - deviantart



Não temo o raio da silibrina

Não desejo a mulher que nunca dorme só

Não sinto falta da dúvida e há muito não sei o que é perguntar

Não vejo luz no túnel, nem mesmo sei onde fica sua entrada

Não transcrevo conversa fiada

Não tomo partido, não tomo inteiro

Não tenho jeito para galã

Não sei o que é febre terçã

Não seguro a onda, não seguro o vento

Não conheço os pontos cardeais

Não abrigo a maldade, não obrigo ninguém

Não entendo você, nem mesmo eu também

Não torço pelo vencedor

Não me deixo enganar, não sou perdedor

Não perco tempo com mesquinharias

Não tenho um vintém

Não acho estranho o diferente, não faço desdém

Não sei o que quero, não sei onde vou, não olho o trem


Outrora julgava-me capaz de dominar o mundo. E esta é das poucas frustrações que roubam-me o sono. A certeza que tenho é que não consegui meu intento. Hoje sei que foi ele quem me dominou. Não é crise de meia-idade, é crise de idade inteira. Lembro-me do Zeca e seu copo de cerveja que nunca seca. Lembro que é a vida que leva eu. E converso com meus botões fartos de ouvir minhas conjecturas. Abro a lata, vamos bater lata, vamos fazer retirada estratégica, voltemos à prancheta, let’s buy a ticket to ride, e continuemos a seguir em frente. Por isso, escrevo. Aqui, quem manda sou eu.

domingo, 2 de agosto de 2009

Um mundo meio que assim...


Hipocrisia. É uma palavra meio abominada, claro. Mas atire a primeira pedra quem não contribui - ainda que em parcelas escassas - para sua continuidade no mundo... Diz-se que a hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis ambos significando a representação de um ator, atuação, fingimento (no sentido artístico). Essa palavra passou, mais tarde, a designar moralmente pessoas que representam, que fingem comportamentos.

Melhor definição não poderíamos ter. Se você parar um pouco para analizar, nos deparamos com pessoas assim no nosso dia-a-dia. Segundo o cientista cognitivo Keith Stanovich (o foi citado para melhor ilustrar o pensamento) as únicas pessoas que não são hipócritas são a minúscula, e talvez não-existente minoria que é tão santa que nunca se entrega a seus instintos mais básicos e o grupo maior que nunca tenta viver segundo os princípios da moralidade ou virtude.

Mas o hipócrita é assim, ele vai viver na sociedade fingindo emular comportamentos socialmente aceitaveis para a sociedade. Existirão situações e situações onde um indivíduo encontrará diante de uma determinada situação e deverá resolvê-la por si mesmo, com a ajuda de uma norma que reconhece e que aceita intimamente, pois o problema do que fazer numa dada situação é um problema prático-moral e não teórico-ético.

Ética! O que é a ética para você? Você tem seu próprio jeito de viver? Você acredita em suas opiniões? Você existe ou você é apenas mais um no mundo que segue pela cabeça da maioria? Será que você é aquela pessoa da moda?

A ética é uma característica inerente a toda ação humana e, por esta razão, é um elemento vital na produção da realidade social. Todo ser humano possui um senso ético, uma espécie de "consciência moral", estando constantemente avaliando e julgando suas ações para saber se são boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas...

O homem tem que limpar o interior e o exterior, tanto um como o outro. Afinal de contas, será que precisamos ser controlados? Discretos? Calmos? Palhaços? Idiotas? Hipócritas?...

"assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e iniquidade" (Mateus 23:28)

A hipocrisia sempre se faz presente em todos. Em algum momento, todos terminam usando dela, em maior ou menor quantidade, o grande problema é que existem aqueles que se acham superiores a isso e às misérias de franqueza humana, e então erguem "bandeiras" de perfeição. E todos sabem que perfeição não existe e mais dia menos dia, isso se revela - a imperfeição. O que se diz "santo", quando cai evidencia isso muito mais, o que aos nossos olhos é hipocrisia.


terça-feira, 28 de julho de 2009

Pobres Formigas

feather on a pond by kureculari - deviantart



Somos como formigas. Caminhamos sob os pés de gigantes. Somos o tempo perdido em dias que não possuem fim. Surpreendemos. Suportamos pesos desproporcionais à leveza que sugerimos. Somos formigas operárias. Trabalhamos para dar conforto ao esperto gafanhoto que nunca passa frio. Nosso comportamento randômico aparentemente determina a ordem do caos que criamos. Somos como o espelho quebrado. Insatisfação eterna com o que vemos, ouvimos e pedimos. Nunca temos o suficiente e tememos nunca ter. Somos a insuportável certeza de não ser, a incerta proeza de vencer, a insuspeitável agonia de não saber. Somos como formigas. Cavamos nossos túneis e neles vivemos às escuras. Somos o oposto do oposto do que é certo e não temos consciência. Somos o fardo pesado que retarda o gozo de uma plenitude que não logramos atingir. Percorremos o labirinto de nossas angústias, catalogamos nossos defeitos, repreendemos nossos sonhos, desacreditamos nossa fé, não deixamos tijolo sobre tijolo, não fazemos acordos, sabotamos nossa improvável felicidade, soltamos impropérios quando deveríamos orar. Somos como as formigas. Incapazes de refletir, não ousamos ter a noção de que ser é parte de uma insustentável e harmoniosa leveza no viver.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O que tenho nas mãos?

Fonte: www.deviantart.com




Grãos de areia que se vão
Gotas de vida que não são
Rito de fim sem razão
Saldo de sonhos em vão
O vir-a-ser nas mãos!

Sinal de gritos e dor
Ausência de palavra e calor
Tempo de silêncio e torpor
Final da ordem sem cor
Nas mãos, nada como valor!


Continua com João, o tema é A insustentável leveza do ser

Ana Fernandes

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um Luar


Uma noite de estrelas...
A lua surge para você.
Nuvens tentam ofuscar,
O lindo luar para você.

Aprendemos muitas coisas,
Conversamos, sorrimos... nos abraçamos.
Uma noite linda para você,
O que mais posso fazer?

Então esperei você,
O que mais posso fazer?
Era só eu e você...

O teu perfume,
Sim, o teu perfume e tua pele,
Fizeram aquele luar o mais completo,
O lindo luar, que era para você.

Um beijo naquele luar,
Eu esperei por você...
Um beijo naquele luar...
Um beijo naquele luar...


terça-feira, 23 de junho de 2009

Às De Ouros...

Quando pego em um às de ouros, que tem um ponto somente
Lembro-me de um grande amor, que hoje está ausente
Logo fecho os olhos e ela se faz presente

Longe do país tive que estar
Em busca de dinheiro para casar
Em um jogo de sorte ou azar

No último dia resolvi arriscar
Nesse jogo madito de sorte e azar
Foi em um jogo de poker que enrriquei por amar

Na minha mão recebi um dez e uma dama de ouros caprichados
Fiz a aposta, e esperei o resultado
Dos três jogadores ficou um, tinha cara de brabo

O cabinha com cara de brabo, apostou tudo e ainda pediu fiado
Para cobrir a minha aposta que eu tinha jogado
Fiquei com medo, pense num medo arretado
...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Regras do Jogo


Regras do jogo


Relapso? Preguiçoso? Atarefado? Eu?! Seja qual for a explicação, é forçoso reconhecer que não tenho escrito no blog com a freqüência que tinha prometido a João. Aliás, acho que o termo freqüência nem se aplica. Eventualidade, talvez. A culpa me perseguindo, assolando meu sono, mordendo meus calcanhares e todos os outros chavões possíveis, me fizeram parir uma idéia que, queira Deus, me obrigue a ser um pouco mais assíduo.


Gostaria de propor uma experiência. Uma criação coletiva. Envolvendo baristas e freqüentadores. Tipo: ao fim vou sugerir um título para a história e indicar um dos outros quatro escritores contratados pelo blog (por falar nisso, meu salário tá atrasado, hein, Jonesy?); o nomeado acrescenta um trecho (em prosa, poesia, foto, desenho, vídeo, diagrama, gráfico, sei lá) e nomeia o seguinte; àqueles que só podem comentar (os que não estão na folha de pagamento ainda), fica a tarefa de contar historinhas incidentais, que não alterem o rumo da história, mas que sirvam de cenário complementar; quando nós cinco (os eleitos) tivermos feito duas inserções cada, o próximo encerra a narrativa. Questões omissas serão solucionadas por (mim) uma comissão julgadora.


Pode ser que não fique uma obra de arte, mas, ao menos, me fará escrever dois posts, resgatará Beto do limbo e movimentará o blog, o que poderá gerar uma receita adicional de publicidade e a conseqüente regularização dos nossos soldos.

Ás de ouro. Continua, por Alessandro Medeiros.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Azulejos

(among the clouds by lastcionz - deviantart)



Ontem mirei um céu de azulejos

E, perdido entre nuvens, ousei perguntar

Para onde voaram meus sonhos?

Que terras mais frias foram eles buscar?

Onde termina a verdade e se inicia a vida?

Céu de revelações

Azul salpicado aqui e acolá de prenúncios

Brancas maneiras de se sentir vivo

Vertigem, vórtice, veraneio sem fim

Uma tarde amena para enlevar a alma

Brisa quente desenevoando a percepção

Uma ou outra questão esquecida

Uma ou outra maneira de se dizer sim

Velas que não se apagam ao vento

Saudade todos os dias

Saudade de todo dia ser assim

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Doença Amiga

O poema abaixo é da autoria do amigo Marcos Macri, poeta e violonista de primeira qualidade. Ele tem outros escritos no baú, vou convencê-lo a nos brindar com outros.





DOENÇA AMIGA

Nutro uma encefalopatia amiga

E a fibrilação de seu abraço

Desconecta minha afinidade com a vida

Como um suspiro antecessor à morte.


Existe algo que não me permito contar,

Acompanha-me ínclito da insônia ao álcool,

Da esquizofrenia à penumbra... e notívago

Anuncia-se com a vinda de uma dor confortante.


Então, ativando uma sensação atemporal,

Faço a noite circundar minhas lástimas:

Haraquiris sem honra, tardios.


Doença Amiga, seja intolerante!

E corte minha longevidade repentinamente

Para que eu não possa me despedir...